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Ai Weiwei em exposição imperdível na Oca
Postado por Estela T em outubro 26, 2018 Editado em outubro 26, 2018

Agenda para quem está em São Paulo: Ai Weiwei em exposição imperdível na Oca. Algumas pessoas sabem como admiro muito este artista chinês de 61 anos de idade, sobretudo porque as obras não ficam naquele ativismo político óbvio e cansativo como vemos alguns exemplos por aí!

Soube da exposição na Oca, dentro do Parque Ibirapuera, alguns dias antes e, pelas fotos que alguns divulgaram, me pareceu muito com a exposição que tivemos a felicidade em conferir no PROA, em Buenos Aires. Na ocasião, eu fiquei muito feliz em finalmente estar próxima a obras deste artista depois de tanto tempo (outra vez foi na Bienal de SP, se não me engano no ano de 2008 ou 2010). Confira as nossas lindas fotos na página Buenos Aires I onde contamos um pouco mais sobre o PROA.

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AI Weiwei tirando uma selfie lá no fundo

Sim... Ai Weiwei é considerado um ativista político e extremamente crítico em relação à postura do Governo Chinês sobre a democracia e os direitos humanos. Devido a isso, ele foi preso, confinado à prisão domiciliar e, depois, uma reclusão por três meses em um lugar secreto, onde sofreu agressões físicas e tudo isso gerou muitas obras de arte, para mostrar que não iria se calar diante de tanta brutalidade.

De 2010 a 2015, o artista teve seu passaporte confiscado e, agora uma mostra retrospectiva em Londres e basicamente a mesma exposição está aqui na Oca, no Parque Ibirapuera, a exposição nomeada “Raiz” que ocupa 8.000 m² e conta com 70 obras de arte.

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Obras que remetem ao período em que ficou preso

 

Talvez o estopim que causou toda a perseguição do artista pelo governo chinês, tenha começado após o terremoto da cidade de Sichuan, um terremoto de magnitude 8.0 e que causou a morte de mais de 80 mi pessoas e Ai Weiwei liderou uma equipe para pesquisar e filmar as condições pós-terremoto em várias zonas onde ocorreu o desastre. Muitas edificações foram danificadas, porém resistiram ao terremoto, em contrapartida, aquelas construídas pelo governo, incluindo escolas, foram chão abaixo já que foram construídos com materiais de baixa qualidade e até haviam ganhado o apelido de "prédios de tofu"! Em forma de protesto contra falta de transparência do governo em revelar os nomes dos estudantes vítimas mortais devido às construções precárias do campus da escola, Ai Weiwei recrutou voluntários para uma "Investigação dos cidadãos" e compilou nomes e informações das vítimas. Ele até criou um blog para divulgar o nome de cada criança morta e um ano depois, a lista já tinha acumulado 5.385 nomes, porém o blog foi fechado pelas autoridades chinesas.

Um colega pesquisador chamado Tan Zuoren investigava sobre a má qualidade das construções onde estudavam as vítimas e Ai Weiwei seria sua testemunha, mas antes de depor a Zuoren, foi espancado pela polícia. Com fortes dores de cabeça, foi diagnosticado com hemorragia interna em um hospital em Munique, na Alemanha, e foi levado para uma cirurgia às pressas. Em 2010 o seu estúdio foi demolido pelas autoridades chinesas alegando que o prédio estava funcionando de forma irregular, apesar de o artista possuir todas as regulamentações e alvarás atualizados e formalizados. Neste estúdio ele construiu diversas célebres obras, como aquelas que estão na TATE Modern de Londres.

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os caranguejos

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Caranguejos de porcelana

Sabendo que as autoridades iriam demolir seu estúdio no ano de 2010, Ai Weiwei resolveu fazer um banquete regado a muitos caranguejos convidando amigos e apoiadores, uma forma de ironizar a decisão autoritária do governo. Porém, ele mesmo não conseguiu comparecer ao banquete porque foi preso. O artista usava o estúdio para desenvolver seus projetos artísticos e para ministrar cursos de arquitetura, mas depois foi acusado de erguer a estrutura sem a permissão de planejamento necessário, recebendo um aviso de demolição. Porém, todo o processo de construção e planejamento estava sob a supervisão do governo e que uma série de artistas foram convidados a construir novos estúdios nesta área porque as autoridades queriam criar um espaço cultural.

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32 bancos da dinastia Qing reconfigurado em um objeto inútil s em alterar a pátina original ou sem adição de materiais

 

O governo confiscou laptops e o disco rígido do computador principal do artista e além de Ai, a polícia também deteve oito conhecidos, sua esposa, e a mãe do seu filho. Após a sua libertação, sua irmã revelou a condição de detenção de Ai à imprensa, detalhando que ele foi submetido a uma espécie de tortura psicológica, sendo detido em uma pequena sala com a luz constante, e dois guardas foram colocados muito próximos a ele em todos os momentos. Em novembro de 2014, as autoridades chinesas o investigaram novamente, desta vez sob a acusação de espalhar pornografia. Até 2015, ele permanece sob vigilância pesada e restrições de movimento, mas continua a criticar através de seu trabalho que inclusive, há um video projetado em uma das paredes da Oca mostrando uma espécie de vídeoclipe com uma música de fundo feita por um dos seus amigos onde mostra A Weiwei e sua equipe flagrando um agente da polícia disfarçado que estava fotografando tudo o que Ai Weiwei fazia. Em julho daquele ano ele recebeu seu passaporte de volta e a permissão para voltar a viajar para o exterior.

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"Deixando cair um vaso da Dinastia Han"

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totalmente feita de Legos

Mas Ai Weiwei não apenas critica o seu governo, ele também critica as violações aos direitos humanos ao redor do mundo, a crise por trás do êxodo, a censura e a apatia através de inúmeros materiais e plataformas, como ele mesmo explicou ao inaugurar sua última exposição em Santiago, Chile, em maio.

Sobre o tema do êxodo forçado, ele conseguiu autorização para registrar a chegada de botes de refugiados nas costas da Grécia e fez uma série a respeito, sobretudo quando, após receber de volta o seu passaporte, mudou-se para Berlim e por lá teve mais contato com o assunto. Ele mesmo é um refugiado.

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Vasos de porcelana com motivos do refúgio

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PVC reforçado que simboliza refugiados em bote

O artista aproveitou a primeira individual dele no Brasil e produziu obras de arte 'site specifics' que significa que foram feitas especialmente para esta exposição. Fez moldes de uma árvore de 31m de altura localizada em Trancoso, Bahia, e que possui 1.200 anos. Em conjunto com artesãos de Juazeiro do Norte, trouxe artesanato em madeira produzidos à maneira ex-votos com imagens de oferendas de gratidão ou devoção. Muitas obras feitas por brasileiros através de parceria estão na exposição, como os frutos de pequi, abacaxi e outras frutas nativas. Até a sexualidade brasileira se encontra lá além de 17 raízes de árvores e troncos espalhados no térreo, resultado de desmatamento juntando o trabalho de carpintaria chinesa.

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Vigas de metal de escolas que desmoronaram dispostas conforme o abalo císmico

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Com frutas tropicais

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Flores de porcelana

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Raízes

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Sexualidade

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Produto do desmatamento

Por fim, foi maravilhoso rever o trabalho arquitetônico "Fovever Bicycles" que possui 9 metros de altura. O artista gosta de trabalhar com itens comuns do cotidiano e a bicicleta é muito icônica em Pequim, já que são o meio de transporte preferencial dos cerca de 20 milhões de moradores da cidade. São mais de 1.000 bicicletas numa espécie de labirinto visual e, embora o artista não deixe claro o conceito por trás desta obra, o site The Creator’s Project acha que a ideia de Ai Weiwei era mostrar a potência da bicicleta como meio de transporte no território chinês, mas em uma perspectiva incomum. Vai saber???

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Informações:
De 20 de outubro de 2018 a 20 de janeiro de 2019
Horário de funcionamento: Terça-feira a sábado das 11h-20h e domingo e feriados das 11h-19h.
Endereço: Oca – Parque do Ibirapuera, av. Pedro Álvares Cabral, s/nº
Entrada: R$ 20

Fotos e textos desenvolvidos por Itinerário de Viagem. Favor respeitar

Deixe seu comentário / 3 Comentários

  1. Responder
    Louco por Arte

    Esta exposição é fantástica! Um privilégio para poucos que conhecem… infelizmente a galera só se liga quando é Picasso e impressionistas rs

  2. Olá! Eu só terei um período de uma hora e meia para ver essa exposição. É suficiente ou são muitas obras? Queria ir com mais tempo, mas vou aproveitar uma folga em uma viagem rápida de trabalho. Obrigada!

    • Responder
      Estela T

      Olha… são muitas obras… mas se você não tiver outra data para voltar e ver com mais calma, mesmo assim recomendo! Eu sou admiradora do artista, não minto… muita obra você acaba ficando besta só de olhar e acaba levando vários minutos em cada. Espero que você goste, mesmo com pouco tempo! Depois me fala se você foi! Bjs

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